MEMÓRIA DO PAISAGISMO NO BRASIL: Vivenciado pelo Eng. Agr. Rodolfo Geiser atuando em paisagismo 6

Autor: Rodolfo Geiser - Data: 05/07/2019

PARTE SEIS..
Auepaisagismo - Fale-nos sobre o projeto do "Horto Geonoma", qual a sua importância e os objetivos para os quais foi criado.

O "Horto Geonoma" foi criado para que nós, paisagistas, pudéssemos ter no cotidiano, uma relação de vida com a vegetação, que, afinal é nosso material de trabalho.

Plantas, são seres vivos, que requerem atenção nas diversas fases de sua vida, tal como uma criança. E o sucesso do crescimento das indicações de espécies vegetais em nossos projetos, no dia a dia e decorrer dos anos, que corresponde ao sucesso de nosso projeto final.

Afinal vendemos ideias no projeto papel e não executamos a obra. Assim, tudo tem de estar perfeito: a solução estética e a técnica de cultivo. Fornecemos projetos, por exemplo, para o Metrô e sua execução sai de nosso controle.

Alguns projetos são executados somente cinco anos após sua elaboração. E, nesses casos, perdemos todo o controle da execução. Ás vezes os clientes nos convocam para dar acompanhamento técnico. Quando nossos clientes são agricultores, o que ocorre frequentemente em áreas maiores, ficamos tranquilos pois o cultivo da vegetação é sua atividade profissional.

Além dessa relação de vida, acompanhando o dia a dia da vegetação, ela nos forneceria, na recíproca, informações técnicas adicionais para o cultivo e manejo da vegetação, fruto da vivência no cultivo e não da leitura de livros. De maneira que pudesse suprir, ao menos em parte, a falta de pesquisas e informações técnicas precisas. O que, como temos exposto aqui, é uma carência para o profissional de paisagismo no Brasil.

Já tínhamos, desde a década de 1980, uma área em Juquitiba, bem próxima aos espigões da Serra do Mar, uma área grande de mais de 25 hectares, compreendida numa pequena bacia hidrográfica.

Tratava-se de uma área totalmente recoberta por mata secundária em avançado estado de regeneração. Mas era de difícil acesso, acessível somente aos finais de semana. Nossa preocupação, na realidade, era um local mais acessível e que pudéssemos de fato, nos instalar de escritório, atelier e moradia num mesmo local. E que fosse próximo à uma cidade de tamanho médio e relativamente próxima à São Paulo.

Em 1988 me pareceu um absurdo, atuar como paisagista, e viver num edifício, longe das plantas. Morar numa grande cidade como São Paulo. Acordar vendo edifícios, ir trabalhar vendo transito e prédios.

Com internet e elaborando projetos em via eletrônica, a distância não seria um fator tão importante. Mesmo porque muitos clientes nem vinham em nosso escritório e a maioria dos encontros era no terreno da obra, presente ou futura, para compreender a situação paisagística do empreendimento.

Em contrapartida, morar algo como até 100 quilômetros de São Paulo (para quem faz projetos para todo o Brasil), não seria um grande "problema" (dificuldade) e poderíamos nos assentar, numa chácara, não muito distante da zona urbana, criar um mini parque e alguma produção de mudas.

Isso nos daria contato cotidiano com a vegetação. Perceber a reação das plantas, com uma chuva, um vento, a movimentação do sol durante cada dia e da primavera ao verão, outono e inverno. Entender melhor a reação das plantas aos diferentes tratos culturais.

Começamos a procurar um terreno na zona rural não distante da sede do município e suficientemente amplo para atender nossos anseios. Em 1994/1995 adquirimos uma propriedade de 35.000m2 em Bragança Paulista e começamos a nos instalar. Em 1998 estávamos instalados de moradia, atelier, e demais instalações.

Resolvemos denominar a propriedade de "Horto Geonoma" em homenagem à um gênero de palmeiras natural das matas do ESP.

Palmeira de pequeno porte, vive nos sub bosques. Temos duas espécies belíssimas, vejam fotos abaixo, produzidas por sementes que trouxemos de Juquitiba, SP. Trata-se de duas espécies ideais para vasos em locais de sombra e uso em interior de edifícios.




"Projeto do "Horto Geonoma"

Da área total de 35.000 m2, criamos um núcleo de produção de mudas próximo à hidrografia com uns 10.000m2 e um mini parque nas partes mais altas, ocupando algo como 8.000 m2. O projeto está esboçado no croqui abaixo.



Seguindo nossa linha de pensar, criamos espaços abertos para uso organizados por vegetação arbórea: maciços, bosques e árvores isoladas. Preocupamo-nos em manter as visuais da região. Proteção dos ventos fortes, privacidade, boa insolação e assim por diante.

No croqui, à esquerda o escritório-atelier e à direita residência, garagem, canil e "bonsaiseiro". Na parte de cima alguns cultivos de ornamentais de baixo porte.

Seleção das espécies vegetais e diversidade biológica.

Criamos bosques com espécies nativas incluindo algumas exóticas, emocionalmente importantes para mim, como os ciprestes.

Cerca de 70 espécies diferentes de arbóreas, em especial as secundárias e climax. Outras palmeiras e arbustivas.
Uma "paisagem silvestre" onde a natureza possa se manifestar com certo controle de nossa parte. Em um projeto que podemos incluir no que se denomina de "Paisagismo Regenerativo"

Implantação e manejo.

Comoçamos do "zero". Em 95% da propriedade havia somente um capinzal de braquiária. Roçamos o terreno e começamos a implantar nosso projeto. Isso em 1998. Utilizamos mudas de 0,80 à 1,00 m de altura. Em um canto havia alguns jovens eucaliptos, que tivemos coragem de cortar e foram incorporados no parque.


Fig.- Mostra o terreno vazio, sem construção, caminhos e vegetação. Foto após roçada do terreno com roçadeira mecânica.
A casa ao fundo esquerdo é a residência de nosso vizinho. Hoje a privacidade é praticamente completa.

Trouxemos muita coisa de nosso terreno em Juquitiba. Agora em 2018, decorridos vinte anos grande parte do bosque está com mais de 20 metros de altura.

Escala de tempo.

Pode-se dizer que o projeto começa a se conformar logo após o terceiro ano. No quinto está mais acolhedor e em seguida ele vai se compondo cada vez melhor. Em alguns locais que quisermos resultados mais imediatos, podemos plantar algumas espécies de crescimento muito rápido, para dar algum aconchego.

O crescimento das árvores vai atraindo pássaros, condições de crescimento para espécies mais exigentes e podemos ir enriquecendo os maciços com a introdução de novas espécies em especial de menor porte adulto.

Pode-se enriquecer o sub-bosque. Essa situação é ideal para surgirem espontaneamente, pela ação de ventos e animais, novas espécies de árvores e arbustivas. Surgiram assim 33 novas espécies arbóreas em nossos maciços, em especial mirtáceas.

Esse corpo vegetal deve ser pensado tanto quanto de regeneração quanto de paisagismo. Ou seja, para manter maciços e espaços visualmente interessantes deve-se fazer certo controle da vegetação, em especial das árvores.

Alguma coisa deve ser podada. Espécies invasoras devem ser eliminadas, bem como o excesso de pioneiras. Cenas de interesses também merecem atenção evitando-se que crescimento excessivo de plantas vizinhas interfira na visualização da paisagem.

E surgem animais de todos os grupos até aves e mamíferos, que passam a conviver com a gente: jacus, periquitos, tucanos, tatus, macacos, gambás, esquilos...


FIG.- Bosques decorridos 20 anos do plantio, com mudas de 0,70m. Agrupamentos considerando as diferentes texturas das folhagens de cada espécie. Vista externa do lado direito no croqui.


Fig.- Residência, espaços abertos gramados, visuais e maciços arbóreos.


Fig.- Vistas preservadas e valorizadas. Ao fundo fraldas da Serra Mantiqueira em Minas Gerais. Bem ao centro, distante 30 km o Templo Zen - Taikanji, em Pedra Bela, SP.



Fig. Vista interna do bosque do lado esquerdo do croqui: espécies nativas plantadas e aparecimento de outras espontaneamente trazidas por pássaros e pelo vento. Essa situação atrai a fauna silvestre: tatus, macacos, gambás, aves como tucanos e jacus.


Fig.- Caminho de acesso visto da sede.


Fig.- A árvore é um Liquidambar, exótico, sempre com 20 anos de idade.


Fig. Conjunto de ciprestes, espécie que possui para mim um significado especial, como se fizesse parte de uma memória ancestral. O que torna indispensável sua presença.


Fig.- De quando em quando nos deparamos com cogumelos dos mais variados tipos, impensáveis quando o terreno era um simples pasto de braquiaria.


Fig.- Oito metros acima do solo, flores da orquídea Vanilla sp, gênero que fornece-nos o tempero baunilha.


Foto. Jacús. Tranquilos demais. Correm o risco de serem atacados por nossos cães.

Decorridos 25 anos temos uma vasta experiência de vida somando a atividade profissional de paisagista mais a vida cotidiana em contato com a vegetação e a natureza o que implica uma vida distante da grande cidade.

Fruir no cotidiano uma paisagem silvestre cultivada é muito diferente da vida urbana. E a experiência buscada em base à profissão e o contato cotidiano com a vegetação, ultrapassou as expectativas. Estamos descobrindo um "novo tipo de relação" em nossas VIDAS.

O Projeto Horto Geonoma está evoluindo para um melhor entendimento do mundo interno, de nossa alma e espírito. Nesse momento ficamos "filosofando" e lembramos palavras tais como "selbst" e "dasein" do psicólogo suíço Carl G. JUNG. O "es" de Freud e Flusser... O "si próprio", o "estar no mundo".

Muito se reflete na canção de Lupicínio Rodrigues: "... o pensamento parece uma coisa à toa. Mas como a gente voa quando começa a pensar". Estamos percebendo que se só pensamos - e a atividade de "projetar" e "planejar" é uma viagem no mundo interno - , corremos o risco de nos tornamos alheios à "realidade" do mundo externo: é necessário um estado de equilíbrio (dinâmico) entre ambos. Enfim, uma experiência de VIDA. Talvez a razão última da "Jardinagem".

Nesse ambiente começa-se a pensar em ecologia como o caminho para aperceber-se uma "espiritualidade agnóstica". Caminho, tal como a palavra "DO" integra-se no Budismo Zen em atividades artísticas tais como a Cerimônia do chá - CHA-DO, a Caligrafia - SHO-DO, a Prática do arco-e-flexa - KYU-DO... sendo "DO" sempre o Caminho para evolução espiritual através do chá, da caligrafia, da arte do arco e flecha.

Auepaisagismo: Qual seria a sua recomendação para aqueles que pretendem iniciar a carreira de Paisagismo?

Como pode ser visto acima, pela minha vida, fui mais "puxado" pela atividade profissional de paisagista do que, comparativamente, tenha "a priori" decidido por ela.

Qual minha recomendação? Não tenho nada específico a não ser dizer que qualquer atividade profissional humana deve ser exercida com "envolvimento". Com uma espécie de "amor", este entendido como consequência de uma postura ÉTICA. Refiro-me à "Ética de Vida" e não "ética corporativa" que não tem nada (ou muito pouco) a ver com a primeira.

Revendo o exposto acima, sobre espiritualidade agnóstica e o significado da palavra "DO" - "O Caminho", na espiritualidade do Japão, nós poderíamos pensar o Paisagismo e a prática da Jardinagem, acrescidas dessa palavra: Paisagismo-DO e Jardinagem-DO.

Na linha da sobrevivência, penso que seria útil nos imbuir também de uma "mentalidade comercial" a qual, (infelizmente) não é meu forte...

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