Como Evitar Escolhas Erradas e Criar Jardins Adaptados ao Local com o Paisagista Rafael Kumatsu
Autor: Mylena Duarte de Almeida - Data: 24/07/2026Em Paranavaí, no noroeste do Paraná, a relação de Rafael Kumatsu com as plantas começou muito antes de sua escolha profissional. Paisagista e agrônomo, ele pertence à terceira geração de uma família que trabalha com plantas desde a década de 1970. A história começou com seu avô, que inicialmente cultivava café, mas precisou mudar de atividade depois que uma forte geada prejudicou as plantações da região. Diante das dificuldades, ele encontrou nas plantas ornamentais uma nova possibilidade de trabalho e, pouco a pouco, também passou a atuar com paisagismo. O que nasceu de uma necessidade acabou se transformando em uma tradição familiar que atravessou décadas e chegou até Rafael.
"Quanto a eu ser agrônomo, foi justamente por causa do paisagismo e da paixão que tenho pelas plantas. Quando entrei na faculdade já tinha a ideia de trabalhar com plantas na empresa da família. A questão técnica por trás das plantas é algo que acho muito interessante, e a agronomia veio para somar nisso. Eu já tinha um conhecimento que vinha passado por gerações, pelo meu avô e pelo meu pai, mas encontrei ali um fundamento técnico mais profundo, um estudo melhor do que já era feito na prática."
Essa combinação entre tradição e conhecimento técnico continua presente na forma como conduz seu trabalho. A empresa da família, que no passado possuía uma produção maior, hoje mantém uma produção própria bastante reduzida e atua principalmente como garden e viveiro. A maior parte das plantas é adquirida de produtores de diferentes regiões do Brasil e revendida de acordo com a demanda dos clientes e dos projetos. Como a produção de plantas ornamentais não é uma atividade forte na região de Paranavaí, o viveiro precisa buscar espécies em diferentes estados, incluindo polos produtores como Holambra, Santa Catarina, Corupá e Dona Eusébia, em Minas Gerais. Essa diversidade permite acompanhar as novidades que chegam ao mercado e oferecer aos clientes uma variedade maior de espécies.
O processo, porém, não termina quando a planta chega ao viveiro. Antes de ser levada para o jardim definitivo, muitas mudas passam por um período de adaptação às condições locais. Plantas que chegam de outras regiões precisam de tempo para se acostumar ao clima de Paranavaí, e colocá-las diretamente no jardim pode comprometer seu desenvolvimento. Rafael acompanha esse processo de perto e compara o cuidado com as mudas ao cuidado dedicado a um animal:
"A planta é um ser vivo e precisa de atenção, tempo e observação. Mesmo com a irrigação funcionando no viveiro, é necessário verificar diariamente se todas as áreas estão recebendo água adequadamente, se alguma planta foi exposta excessivamente ao sol ou se houve qualquer alteração que possa comprometer sua adaptação. Essa atenção é parte fundamental do trabalho antes mesmo de a planta chegar ao cliente."
Um jardim precisa pertencer ao lugar onde está
As características de Paranavaí têm influência direta na maneira como Rafael desenvolve seus projetos. A região apresenta clima quente e solo arenoso, uma combinação que facilita a perda de umidade e exige atenção especial à disponibilidade de água. Nesse contexto, o paisagismo tropical brasileiro é o estilo que mais aparece em seus trabalhos, mas não é o único. A influência da própria história familiar faz com que o paisagismo oriental também tenha espaço importante em seus projetos, enquanto jardins de inspiração europeia também são desenvolvidos de acordo com o gosto dos clientes.

A adaptação, entretanto, é indispensável. Um jardim oriental, por exemplo, não precisa necessariamente utilizar apenas espécies tradicionalmente associadas a esse estilo. A estética pode ser preservada enquanto as plantas são escolhidas de acordo com aquilo que consegue prosperar na região. O bambu é um exemplo de espécie que se adapta bem ao clima local e pode contribuir para essa composição. A lógica se repete em diferentes estilos: mais importante do que reproduzir uma imagem idealizada de jardim é compreender quais plantas realmente terão condições de viver naquele ambiente.
Essa preocupação se torna ainda mais importante diante dos períodos de estiagem que fazem parte da realidade local. Paranavaí pode passar 30 ou até 60 dias sem chuva, e um jardim tropical dificilmente consegue se manter sem água durante um período tão prolongado. Por isso, a irrigação deixou de ser apenas um recurso adicional em muitos projetos e passou a ser uma parte importante da própria estratégia de implantação e manutenção do jardim.

O mercado mudou, e a inteligência artificial também entrou nessa relação
A atuação de Rafael está concentrada principalmente em projetos residenciais, além de propriedades como fazendas, chácaras e sítios. A empresa trabalha com clientes de diferentes padrões de investimento e procura adaptar a implantação ao orçamento disponível. Essa capacidade de adaptação tornou-se ainda mais importante porque o comportamento do consumidor também mudou. A inteligência artificial já faz parte da jornada de muitos clientes antes mesmo do primeiro contato com o paisagista. Rafael percebe que algumas pessoas chegam ao atendimento depois de conversar com ferramentas de IA, trazendo uma ideia mais definida sobre o estilo de jardim que desejam, sobre determinadas plantas ou até sobre problemas que identificaram em seus próprios jardins.
Na avaliação do paisagista, isso não necessariamente representa uma ameaça ao profissional. Em alguns aspectos, a inteligência artificial até facilita o primeiro contato, porque o cliente consegue organizar melhor suas ideias antes de procurar ajuda especializada. O problema está em transformar uma ideia genérica em uma solução adequada à realidade local. Uma planta pode funcionar em determinada região e apresentar dificuldades em outra, e as diferenças de microclima, temperatura, umidade e solo podem alterar completamente o resultado.
Por isso, Rafael entende que a tecnologia pode auxiliar, mas não substitui a experiência de quem conhece as plantas e as condições específicas de uma região.
"O próprio trabalho no viveiro demonstra essa diferença: uma muda que chega de outra parte do Brasil precisa passar por um processo de adaptação antes de ser colocada definitivamente no jardim. É uma etapa que exige observação e acompanhamento e que dificilmente pode ser resolvida apenas com uma recomendação genérica."
Ao mesmo tempo, ele acredita que o setor continua oferecendo oportunidades justamente porque existe uma parte do trabalho que depende da presença humana. Plantar, acompanhar, identificar problemas e cuidar de um jardim exigem mão de obra. Para Rafael, quem gosta de plantas e está disposto a trabalhar diretamente com elas encontra uma profissão com futuro, especialmente em um momento em que profissionais qualificados para manutenção estão cada vez mais difíceis de encontrar.
O projeto que ensinou sobre limites, adaptação e responsabilidade
Entre os trabalhos que marcaram Rafael está um projeto residencial em que foram utilizadas fênix-canadenses. A escolha da espécie parecia adequada ao resultado desejado para a fachada, mas trouxe um problema conhecido: o ataque de besouros.
A situação exigia monitoramento constante e aplicação de defensivos. Mesmo com os cuidados realizados, uma das palmeiras morreu e foi substituída pela empresa. Mais tarde, outra apresentou o mesmo problema. Rafael decidiu intensificar o acompanhamento e passou a visitar a planta mensalmente, tratando-a com o mesmo cuidado que dedicaria a qualquer organismo que dependesse diretamente de sua atenção.

O problema, porém, coincidiu com um período de três semanas de chuva contínua. A água acabou lavando o defensivo aplicado, permitindo que o besouro voltasse a atacar. A palmeira morreu novamente.
O caso se tornou um exemplo concreto de como o paisagismo depende de fatores que nem sempre estão completamente sob controle do profissional. Mesmo quando a implantação é feita corretamente, o clima, o comportamento das plantas e as condições do ambiente podem alterar o resultado.
Agora, diante da necessidade de uma terceira substituição, Rafael decidiu mudar a estratégia. Em vez de insistir na mesma espécie, será escolhida outra palmeira capaz de produzir um efeito semelhante na fachada, mas com maior adequação às condições daquele local. A experiência reforçou uma convicção que Rafael considera essencial na profissão:
"Quando algo dá errado, o paisagista precisa assumir a responsabilidade e procurar uma solução. Para ele, não é suficiente simplesmente atribuir a culpa a outro fator e abandonar o cliente. O profissional precisa acompanhar o resultado daquilo que recomendou e, quando necessário, corrigir o caminho."

A fotomontagem aproximou o cliente do projeto
Um dos maiores desafios enfrentados por quem vende paisagismo é fazer com que o cliente consiga imaginar algo que ainda não existe. O profissional olha para o espaço e consegue visualizar as plantas, os volumes e as combinações, mas o proprietário nem sempre possui essa mesma capacidade de representação mental.
Foi nesse ponto que o PhotoLANDSCAPE passou a ter um papel importante na rotina de Rafael. Depois da visita ao cliente, são feitas fotografias e medidas do espaço. A partir desse material, ele desenvolve uma representação do jardim que permite apresentar ao proprietário uma ideia muito mais concreta do resultado.
A mudança na negociação é significativa. Em vez de explicar apenas como o jardim poderá ficar, Rafael consegue mostrar ao cliente uma representação aplicada à própria casa. A apresentação costuma ser feita com duas ou três imagens na loja, onde uma televisão permite visualizar a proposta com mais clareza. O cliente passa a enxergar a transformação antes de tomar a decisão.
Para Rafael, essa visualização é um dos principais motivos pelos quais a fotomontagem contribui para o fechamento. O cliente deixa de depender exclusivamente da explicação do profissional e passa a ter uma referência visual para compreender a proposta. Em muitos casos, segundo seu relato, a apresentação é suficiente para gerar o entusiasmo necessário para que a negociação seja concluída naquele momento.
Antes de encerrar a conversa, Rafael resume sua recomendação para quem pretende começar na profissão em três atitudes: honestidade, conhecimento técnico e resiliência.
"O paisagismo pode apresentar resultados rapidamente, mas também pode exigir tempo. Uma planta pode não se adaptar, um projeto pode enfrentar dificuldades e uma escolha aparentemente correta pode precisar ser revista."
Atrajetória de Rafael Kumatsu revela um paisagismo que está mudando, mas que continua fundamentado em algo muito antigo: o cuidado com aquilo que cresce. A tecnologia tornou mais fácil apresentar uma ideia, a inteligência artificial mudou a maneira como os clientes chegam ao profissional e as novas configurações das casas transformaram os jardins. Mas a planta continua exigindo água, tempo, conhecimento e atenção.
E talvez seja justamente essa característica que torne o paisagismo tão particular. É uma profissão em que o resultado não termina quando o projeto é apresentado ou quando a obra é entregue. Ele continua crescendo, mudando e criando raízes, assim como a própria carreira de Rafael, construída entre a tradição familiar, a Agronomia, a tecnologia e o contato diário com a terra.
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