O Que Todo Paisagista Precisa Entender Sobre Educação Ambiental com o Paisagista Érico Zorba
Autor: Brenda de Melo Esteves - Data: 09/07/2026
Érico Zorba, o paisagista que transformou um terreno abandonado em uma floresta de conhecimento
Há quem descubra o paisagismo na universidade, em um escritório de projetos ou admirando jardins históricos. Com Érico Zorba, o caminho foi outro. Servidor do Senado Federal, ele encontrou sua vocação ao se deparar com um espaço recém-inaugurado, moderno e cheio de potencial, mas completamente abandonado. Onde muitos enxergavam um problema administrativo, ele viu uma oportunidade de criar algo que pudesse transformar pessoas.
"(...) trabalho no Senado Federal, e havia um espaço inaugurado em 2011 que estava vazio, um espaço de sustentabilidade. Não tinha ninguém para cuidar dele. Era um espaço novo, que tinha reúso de água, composteira, uma estufa, e se propunha a produzir plantas para doação. Esse espaço foi construído, inaugurado com muita pompa, e depois abandonado, fechado, novinho em folha, sem ninguém para tocar. Eu olhei para aquilo e falei: "não, eu vou aprender a viver isso." Comecei a trabalhar lá."
Foi assim que começou uma jornada que já dura mais de quatorze anos. Entre livros, cursos, viagens, estudos de botânica e incontáveis sementes coletadas pelo Brasil, Zorba construiu uma trajetória singular: a de um paisagista que nunca precisou vender jardins para sobreviver, mas que fez da pesquisa, da sustentabilidade e da educação ambiental o centro de sua profissão.
Seu maior orgulho, curiosamente, não nasceu de um projeto oficial.
Em um terreno baldio localizado nas áreas de apoio do Senado Federal, atrás da gráfica da instituição, ele iniciou um plantio quase intuitivo. Aos poucos, ao lado de apenas dois jardineiros, foi introduzindo espécies trazidas de diferentes regiões, sempre com o cuidado de evitar plantas invasoras. O que inicialmente poderia ser chamado de agrofloresta ganhou, com o tempo, outro significado.
Fonte: Viveiro do Senado Federal
"(...)hoje acho o termo "agrofloresta" meio superado para o que aquilo virou. Na verdade, virou uma coleção botânica, porque eu fui catando semente pelo Brasil inteiro, buscava, comprava sementes e mudas, e fui plantando, entre aspas, uma "agrofloresta". Mas não é agrofloresta de verdade, porque ela não produz alimento. Virou uma coleção de plantas de vários lugares do mundo, todas catalogadas, cada uma com uma ficha etnobotânica."
A mudança de conceito não é apenas semântica. Para Zorba, a área passou a cumprir uma função muito maior do que produzir vegetação. Cada espécie possui uma história, um contexto cultural e um significado. Muitas eram acompanhadas por fichas etnobotânicas que explicavam suas origens, usos tradicionais e importância histórica.
Entre as cerca de 120 espécies arbóreas reunidas ao longo dos anos estão coleções de palmeiras, árvores brasileiras, espécies africanas e exemplares vindos de diversas partes do mundo. O objetivo nunca foi criar um jardim ornamental convencional, mas um espaço vivo de aprendizado. Foi justamente essa dimensão educativa que acabou se tornando o coração do projeto.

Ao receber escolas, estudantes e visitantes, Zorba transformava cada caminhada pela floresta em uma aula de história, botânica e cultura. Em vez de simplesmente apresentar nomes científicos, contava histórias sobre plantas utilizadas por civilizações antigas, espécies sagradas para religiões de matriz africana, árvores ligadas à medicina tradicional e curiosidades encontradas em anos de pesquisa bibliográfica.
"Eu estudava etnobotânica, pesquisava a etimologia dos nomes, vínculos históricos: plantas ligadas a Cleópatra, a povos indígenas, ao candomblé. Tinha tudo anotado. O passeio era assim: "essa planta é sagrada para o candomblé", "essa planta os gregos usavam para simpatia", e por aí vai. Era o meu jeito de fazer educação ambiental naquele espaço."
Para ele, ensinar sobre plantas significa criar vínculos emocionais. Quando as pessoas conhecem a história de uma espécie, passam a enxergá-la de outra forma. Essa visão também o levou a questionar práticas que, muitas vezes, são celebradas como iniciativas ambientais. Uma delas é a distribuição gratuita de mudas. Embora pareça uma ação positiva, Zorba acredita que, sem planejamento, ela produz muito mais marketing do que resultados ambientais concretos. Segundo ele, distribuir milhares de mudas sem acompanhamento não garante recuperação ambiental, não assegura a sobrevivência das árvores e ainda pode prejudicar viveiristas que dependem da produção comercial de espécies nativas.
(...)distribuir árvores sem controle não significa compensar carbono de verdade, eram espécies quaisquer, doadas para qualquer pessoa, plantadas em qualquer lugar sem acompanhamento, sem saber se sobreviviam, sem plano de recuperação de área. Era greenwashing, com G maiúsculo: o Senado divulgava "distribuiu mil mudas de árvores" e propagandeava que isso "vai compensar X toneladas de carbono em dez anos", mentira, porque não há como mensurar isso, e plantar árvores aleatoriamente não gera compensação de carbono de forma nenhuma. Era só propaganda, uma política meio rasteira.

Na visão do paisagista, o verdadeiro investimento deveria estar na educação ambiental e na formação de uma cultura de conservação, não apenas em números que rendem manchetes. Essa preocupação aparece também quando fala sobre um dos maiores desafios da sua carreira: valorizar o Cerrado. Apesar de ser um dos biomas mais ricos do planeta, o Cerrado ainda ocupa pouco espaço no paisagismo brasileiro.
Enquanto essa mudança cultural não acontece, muitos de seus projetos permanecem apenas no papel.
Ao longo dos anos, Zorba produziu diversas propostas para áreas do Senado Federal. Apesar do reconhecimento de colegas arquitetos e técnicos, poucas chegaram às etapas de implantação. A dificuldade, segundo ele, está muito menos na capacidade técnica do que na ausência de uma cultura institucional que reconheça o jardim como um elemento estratégico dos espaços públicos.
Ainda assim, ele continua desenhando.
Um dos trabalhos que mais representa sua filosofia foi concebido para o futuro Centro Cultural do Senado Federal. O projeto transformava um antigo clube abandonado em um jardim temático dedicado à diáspora africana.
"Minha proposta era pegar essas ruínas e ressignificá-las, fazendo jardim em cima delas — a piscina virando um espaço ajardinado, com pouca intervenção, porque minha filosofia é gerar o mínimo de resíduo possível, sou muito ligado à sustentabilidade."
A intenção era transformar o lugar em um grande jardim de caráter histórico, cultural e sustentável. O espaço, incorporado ao patrimônio da União após a quitação de uma dívida e posteriormente destinado ao Senado, reunia diversas estruturas em ruínas, como piscina, sauna, lago artificial e edificações de apoio. Em vez de demolir esses elementos, Zorba propôs ressignificá-los, incorporando-os ao paisagismo com o mínimo de intervenção possível, reduzindo a geração de resíduos e valorizando a memória do lugar. A proposta foi apresentada em seis pranchas, três desenhadas em nanquim e três produzidas com o VisualPLAN, acompanhadas de um memorial descritivo.


O conceito do jardim tinha como tema a cultura dos povos afrodiaspóricos e buscava representar a diversidade do continente africano por meio de um percurso simbólico. O visitante iniciaria o trajeto em um ambiente inspirado na savana africana, atravessaria um contêiner que remetia aos navios negreiros e chegaria a um labirinto de cana-de-açúcar, representando o processo de escravização no Brasil. O projeto também incluía espaços que faziam referência aos quilombos, à presença islâmica na África e a Nelson Mandela, além da combinação de espécies africanas e brasileiras, evitando representações estereotipadas da cultura africana.
"O projeto tinha três ambientes: um que lembra uma savana, representando a África; você atravessa uma via, como quem atravessa o mar, entra num contêiner que simboliza o navio negreiro, e ao sair dele cai num labirinto de cana-de-açúcar simbolizando a travessia da savana africana para o "inferno verde" da cana no Brasil. Depois havia uma área que lembra um quilombo, e a ideia de um espaço islâmico, porque a África também é islâmica, além de um espaço dedicado a Nelson Mandela, tudo cheio de simbolismo, mas sem caráter religioso."


Embora o projeto tenha acabado não sendo executado, ele resume aquilo que Zorba acredita ser o papel contemporâneo do paisagismo. Essa mesma filosofia aparece em seu processo criativo.
Mesmo dominando técnicas tradicionais de desenho em nanquim, papel vegetal e croquis feitos à mão, ele incorporou ferramentas digitais para ampliar suas possibilidades de apresentação.
Seu fluxo de trabalho normalmente começa no AutoCAD, onde desenvolve a base técnica do projeto. Em seguida, utiliza o VisualPLAN para construir o modelo tridimensional, elaborar perspectivas e produzir fotomontagens que aproximam a proposta da realidade.
"Eu sou meio imigrante digital. Outro dia tentei usar o SketchUp, achei legal, mas para montar os blocos do zero achei trabalhoso, eu vou ficar com meu AuE, porque ela já tem os blocos prontos e um catálogo completo, com muitas facilidades. Mas, para ser sincero, eu queria aprender a usar mais as ferramentas, acho que uns oitenta por cento delas eu ainda não sei usar direito, mesmo tendo feito o curso online. O básico eu já consigo: monto um 3D, faço fotomontagens satisfatórias, está funcionando, mas falta aprofundamento.
Eu faço o desenho de base no AutoCAD, que domino um pouco, depois passo rapidamente para o VisualPLAN, que acho mais divertido, vou colocando os blocos e já vendo o resultado em 3D, fica mais fácil e mais legal de montar."
Para Zorba, entretanto, nenhuma tecnologia substitui a essência do paisagismo. Seu conceito mais marcante talvez seja aquele que resume toda sua trajetória: colocar ética no jardim.
"(...)sem querer parecer pedante, a questão filosófica mesmo: colocar ética no jardim. Acho que hoje em dia o jardim tem que estar alinhado com a emergência climática, com a degradação do planeta, com as questões socioambientais. Não dá mais para fazer jardim só para ser bonito, principalmente em espaço público institucional. O jardim tem que ser mais ecológico e mais preocupado com questões humanas. não dá para pensar só em enfeitar canteiro central. Tem que ser um jardim funcional: que absorva carbono, retenha solo, absorva água de chuva, contenha enxurrada. Isso muda a estética, e as pessoas precisam entender que estamos falando de urbanismo, jardins que prestem serviços ambientais, atendam à população, à ecologia e também à cultura local."
Na sua visão, o paisagismo precisa responder às mudanças climáticas, recuperar solos, favorecer a biodiversidade, infiltrar água da chuva, capturar carbono, criar espaços educativos e fortalecer a identidade cultural das cidades. Essa mudança exige também transformar o olhar das pessoas. Folhas secas no chão deixam de ser sujeira e passam a representar ciclagem de nutrientes. Jardins menos formais deixam de parecer abandono para se tornarem ambientes vivos e funcionais.
Antes de encerrar a conversa, Érico compartilha uma reflexão voltada àqueles que pretendem seguir carreira no paisagismo:
"Faça o que você gosta, a chance de dar certo é muito maior quando você ama o que faz. Se você gosta de paisagismo, botânica, sustentabilidade, arquitetura, vá em frente. Mas um efeito colateral é que você deixa de ter férias de verdade: mesmo de férias, você está catando muda, viajando para ver jardim, enchendo o carro de mudas. É uma faca de dois gumes, mas muito bom, o prazer de estudar aquilo que se ama."
Mais do que jardins implantados, Érico Zorba construiu uma forma de pensar o paisagismo. Em sua trajetória, plantas deixam de ser apenas elementos ornamentais e passam a contar histórias, preservar memórias, despertar pertencimento e responder aos desafios ambientais do presente. Entre coleções botânicas, projetos, pesquisas e anos dedicados à educação ambiental, seu trabalho demonstra que um jardim pode ser muito mais do que um espaço bonito: pode ser um instrumento de conhecimento, sustentabilidade e transformação. Afinal, para Zorba, paisagismo não é apenas desenhar a natureza, mas encontrar maneiras de aproximar pessoas, cultura e meio ambiente em um mesmo espaço.
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