Entrevista: José Francisco Benetti, Paisagismo e Ecologia

Autor: Regina Motta - Data: 01/08/2015

A Revista AuE Paisagismo teve o prazer de conversar com o Paisagista José Francisco Benetti, da http://www.benettipaisagismo.com.br/, sediada em Canela RS, que desenvolve uma ampla gama de trabalhos na área de Paisagismo e Meio Ambiente.
Certamente nossos leitores terão muito prazer em conhecê-lo melhor.

Aue Paisagismo: Como surgiu seu interesse pela área de Paisagismo e Ecologia?

José Francisco Benetti: Foi algo cumulativo, de uma vida. Não foi planejado, apenas me coloquei a serviço daquilo que acredito ser a minha missão: embelezar os lugares por onde passo aplicando ao máximo os conhecimentos e a consciência que me foi oportunizada até aqui para melhorar a vida das pessoas e do ecossistema que as envolve e participam.

Minha origem é rural, de onde tenho a memória de uma agricultura livre de insumos químicos, estudei em uma escola agro técnica (Bom Pastor de Nova Petrópolis) que foi cofundadora da feira orgânica mais tradicional do RS (Colmeia) onde me formei Técnico em Agropecuária. Este curso exige um estágio de especialização de 500 horas, e este foi feito na maior floricultura/produtora de plantas ornamentais para jardins do sul do Brasil, a Floricultura Úrsula, com nada menos que Toni Backes, agrônomo paisagista, um dos mais notáveis divulgadores da permacultura e do paisagismo produtivo no país. Com ele trabalhei por oito anos até percebermos que cada um poderia desenvolver uma carreira autônoma, em sua cidade (ele em Nova Petrópolis e eu em Canela) com mais liberdade para aplicar suas próprias nuances de estilos. Daí para frente cursos livres na área de bioarquitetura, permacultura e a pós-graduação em Agro ecologia aplicada direcionaram para um estilo e um nicho bem definido, combinando arte e técnica e alinhando o paisagismo com a ecologia.



Aue Paisagismo: Fale-nos sobre o trabalho nas diversas áreas da Benetti Paisagismo.

José Francisco Benetti: Optamos por diversificar as atividades da empresa, atuando em vários segmentos, desde a produção de mudas orgânicas de árvores nativas para o segmento ambiental, de plantas ornamentais para usos nos jardins que elaboramos, consultoria para implantação de edificações e jardins mais sustentáveis, assistência técnica paisagística para condomínios, oferta de cursos de curta duração nas áreas de jardinagem e paisagismo, instalação e manutenção de telhados verdes e o carro chefe da empresa que são os projetos e implantação de jardins, residenciais e comerciais.



Com uma equipe enxuta que envolve sete pessoas e com eventuais terceirizações e parcerias tentamos dar conta deste leque de atividades. Por esse motivo limitamos nossa abrangência geográfica na chamada Região das Hortênsias, na serra gaúcha, da qual fazem parte Gramado e Canela, duas das mais importantes cidades turísticas do país.

Estamos focados em atender a demanda por paisagismo com personalidade, elegância e responsabilidade ambiental. Cada jardim é único! As necessidades podem ser idênticas, mas o estilo arquitetônico da edificação, o relevo, a localização e o perfil dos usuários poderão definir resultados completamente diferenciados.



Com perspicácia e criatividade sempre inserimos conceitos e elementos ecológicos associados a uma estética livre, onde podem figurar plantas nativas ao lado de flores híbridas, sem dogmatismos. Materiais naturais como pedras e folhas secas podem ser vistas ao lado de produtos tecnológicos sem agredir aos olhos de ninguém.

Aue Paisagismo: O Telhado Verde é, hoje, uma tendência mundial. Como tem sido a aceitação na sua região?

José Francisco Benetti: Trabalhamos com telhados verdes desde o ano 2000. Neste tempo implantamos uns 30. Por aqui a maioria das pessoas ainda acha que a principal finalidade deles é estética e que as funções ecológicas se resumem a paliativos para compensar a diminuição do verde nas cidades grandes. Como aqui os jardins costumam ser muito agradáveis aos olhos e resta bastante vegetação arbórea no entorno e mesmo dentro das cidades, a cobertura vegetal de casas e prédios é considerada apenas, pelos mais conscientes, quanto à economia que eles podem representar a longo prazo e pelas pessoas engajadas nas questões ambientais.



De modo geral, o seu uso é incipiente, por vários motivos, o principal talvez seja a falta de informação sobre quanto é útil e economicamente viável a sua instalação para garantir o conforto térmico dos habitantes das edificações e a economia de energia gerada pela sua existência.

Arquitetos, construtores e proprietários, imaginam que seja mais caro um telhado verde do que uma cobertura convencional, não entendem da manutenção das plantas e, muitas vezes, desconfiam da eficiência de vedação quanto à infiltrações. Todos mitos que podem ser desfeitos rapidamente perguntando a quem tem ou entende da sua instalação.



Em 15 anos e, de todos os telhados instalados, houve apenas uma desistência, devido a uma impermeabilização mal feita e o receio de que este problema pudesse se repetir, os demais usuários, inclusive eu, são testemunhas devotas de que casas com telhados verdes são muito confortáveis e econômicas, além de charmosas e únicas, pois com a variedade de combinação de plantas que podemos usar, cada telhado se torna original.

Aue Paisagismo: Quais as espécies de plantas você utiliza mais em seus projetos? Existe a preocupação de privilegiar as espécies nativas?

José Francisco Benetti: Estamos ao lado de Nova Petrópolis, cidade onde está a Floricultura Úrsula, uma floricultura com mais de 40 anos de tradição e inovação na produção de espécies de plantas ornamentais. Hoje ela dispõe de mais de 1.000 espécies e subespécies diferentes de plantas para uso em jardins. Sem dúvida, esta oferta nos permite uma flexibilidade enorme na seleção de plantas para cada jardim e traz um problema intrínseco, que é o de escolher dentre tantas opções de lindas plantas.



José Francisco Benetti: Procuramos, sim, usar plantas nativas em nossos projetos, talvez tenhamos umas 100 espécies disponíveis comercialmente mas, sem dúvida, somos muito influenciados pelo que os clientes vêem já plantado nos jardins da redondeza ou mesmo as plantas da moda que toda hora figuram nas revistas de arquitetura e construção ou mesmo na TV.

Dentre as nativas que mais gosto de usar estão a caliandra, o manacá, a pitanga anã, a justícia, as bouganvileas, as lantanas, verbenas, petúnias e uma coleção de árvores frutíferas que fazem a alegria das crianças e dos passarinhos.



Aue Paisagismo: Como você vê a profissão de paisagista hoje? Sente uma valorização maior? E as dificuldades, quais são?

José Francisco Benetti: Nunca fiz tantos projetos de jardins como atualmente e não é porque numericamente existem mais construções, não.

As pessoas estão dando mais importância ao entorno da casa, o conjunto arquitetônico e também a importância ambiental do jardim. Por isso contratam profissionais para isso, como contratam outros para desenhar e construir suas casas, decorar e mobiliar.



A vida das pessoas melhorou nos últimos anos, o poder aquisitivo é maior, mais gente está morando em casas (muitas vezes próprias) e, com isso, buscando prestadores de serviços e produtos mais qualificados e cada vez mais percebem que qualidade tem preço e que sempre que é possível pagar este preço há uma imensa recompensa revertida em satisfação das necessidades e valorização do imóvel e sua usabilidade.

Os maiores obstáculos são a falta de visão de empreendedores que não dão a devida importância ao paisagismo, a informalidade e a sonegação de impostos, que geram uma concorrência desleal e os modismos que tendem a bitolar o senso estético das pessoas.



Aue Paisagismo: Você percebe, hoje, uma preocupação maior com o meio ambiente e uma valorização das áreas verdes pelas construtoras e clientes?

José Francisco Benetti: Melhorou muito, mas ainda estamos engatinhando nesta matéria. E a maioria das pessoas acha que sustentabilidade ambiental custa caro, é uma atividade suplementar, mas não é essencial. Também acham que é algo dissociado do outro, como a praça é para bonito e para o lazer e o bosque é para preservação ambiental, sendo que as duas podem ser uma coisa só.



O jardim, por natureza, é ecológico, mas pode ser muito mais se o olharmos pelo viés ambiental. Usar água em uma fonte ou laguinho, por exemplo, plantas floríferas ou frutíferas, fazer adubação orgânica e compostagem de resíduos, manter a permeabilidade e usar a água da chuva para irrigação etc.

Tudo isso não custa mais que um jardim convencional, e serve de habitat para um sem número de espécies benéficas que vão equilibrar o ecossistema construído e evitar problemas ambientais macros como enxurradas, coleta de lixo e aquecimento das cidades, e micros como alimentar e abrigar a fauna urbana e combater eventuais pragas que atacam as plantas ornamentais.

Certo que existem muitos que querem criar espaços de convivência externos, inserção de árvores para sombra e frutíferas, pequenas hortas para produzir ervas orgânicas, manter a vegetação nativa e jardins de baixa manutenção. Enfim, eu diria que (nós, civilização) estamos no caminho certo, mas caminhando devagar.

Aue Paisagismo: Você usa o AutoLANDSCAPE, como esta ferramenta tem ajudado em seu trabalho? O que nos diz sobre a nova versão do software?

José Francisco Benetti: Tenho usado o AutoLANDSCAPE como instrumento auxiliar para elaboração de projetos há pouco tempo e não conheci a versão anterior. Ainda estamos nos familiarizando com as ferramentas.

Durante muito tempo terceirizei a graficação de projetos e hoje estamos trazendo para dentro da empresa este trabalho também através deste software. Isto tende a trazer economia e agilidade.


Aue Paisagismo: Qual a sua mensagem aos jovens que se interessam pela profissão de paisagista?



José Francisco Benetti: A profissão exige equilíbrio entre arte, técnica e gestão. Cada dia traz novos desafios e com eles aprendizados. Esta é uma profissão muito complexa, exige conhecimento de muitas áreas diferentes, para lidar com a terra, com as plantas, com os elementos construídos, com as intempéries (clima), e na gestão do negócio, nos orçamentos, controles e relatórios e na relação pessoal e profissional com os clientes e até com os funcionários ou contratados.

Mas é muito gratificante, construir ambientes vivos, que interagem com as pessoas e a natureza, vê-lo tornar-se parte do todo, mudar com o tempo e se reinventar a cada estação. É um pouquinho brincar de ser deus e, em pouco tempo, transformar lugares e pessoas em ambientes felizes.

Aue Paisagismo: Dentre os projetos que você realizou, qual deles vocês destacaria? Conte-nos um pouco sobre este projeto.



José Francisco Benetti: Há um projeto em especial, implantado há apenas um ano e por isso ainda em formação em que pudemos aplicar várias técnicas e criar espaços dentro da nossa linha de trabalho: desde o uso de materiais locais, plantas nativas, horta orgânica, pomar com frutíferas nativas, córrego ornamental, jardim filtrador, mulching, muita biodiversidade e até um telhado verde de 500m² que cobre toda a residência.


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