O paisagista Eduardo Barra fala sobre a ABAP e sobre seus projetos

Autor: Anita Cid - Data: 10/02/2009

Eduardo Barra

Eduardo Barra é arquiteto paisagista (UFRJ - 1976) com escritório próprio no Rio de Janeiro, presidente da ABAP Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas, biênios 2005-2006 e 2007-2008, ex-professor do Curso de Paisagismo da Universidade Veiga de Almeida, criador e ex-editor do Jornal da Paisagem, criador e editor do informativo eletrônico Paisagem Escrita. Autor do livro "Paisagens Úteis: escritos sobre paisagismo" (Editoras Mandarim & Senac São Paulo). Autor de projetos paisagísticos para os centros de convenções Ulysses Guimarães (Brasília DF) e Rio Cidade Nova (Rio de Janeiro RJ), Usinas Nucleares de Angra dos Reis RJ e parques públicos para as cidades fluminenses de Nova Iguaçu, Paracambi, Quissamã e Rio das Ostras, além do Parque da Cidade de Porto Velho(RO).











AuE Soluções: Conte-nos um pouco sobre como sua história com a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP)?

Barra: Me associei em 1978, por ocasião do Congresso da IFLA em Salvador (BA), enquanto a entidade foi fundada em 1976, dois anos antes. Depois, me afastei, pelas dificuldades de comunicação entre um associado no Rio e a sede em São Paulo. Era um tempo sem internet e e-mails, por mais estranho que isso possa parecer, hoje em dia. Voltei em 2000 para formar o Núcleo Rio de Janeiro, que coordenei até 2004. Em 2005 assumi a presidência da ABAP, passando a coordenação do Núcleo a Marcia Nogueira Batista. Em 2007 fui reeleito e agora, em fevereiro, deixo o cargo sob a batuta da arquiteta paisagista paulistana Saide Kahtouni. A ABAP surgiu da constatação de um grupo de arquitetos, que vinha trabalhando com a paisagem, da necessidade de se estruturar minimamente a prática do ofício e, também, da importância de conectar o Brasil ao que acontece no mundo - daí a organização de uma entidade que pudesse se filiar à grande federação internacional, a IFLA - International Federation of Landscape Architects.

AuE Soluções: Qual a importância da ABAP para os profissionais paisagistas?

Barra: É através da entidade que vamos formando a mentalidade do que deve ser a prática profissional do arquiteto paisagista no Brasil, é através dessa vivência que trocamos experiências, debatemos nossas dificuldades e apreensões profissionais, aprendemos uns com os outros...

AuE Soluções: Quais as vantagens de ser um membro da instituição?

Barra: Participar de tudo isso que citei acima e sentir-se útil ao ajudar na construção de uma visão verdadeiramente útil do ofício para a sociedade brasileira e, em paralelo, para o futuro, englobando nisso questões como a proteção do meio ambiente, o respeito e a valorização dos recursos hídricos, a consciência do potencial de nossas paisagens naturais e urbanas, etc.

AuE Soluções: Atualmente a profissão de paisagista não é regulamentada. Como você vê esta situação?

Barra: Essa é uma das missões da ABAP: criar condições para que a profissão venha a ser regulamentada da forma como acreditamos que deva ser. Nesse aspecto, o Brasil ainda está muito atrasado, pois se imaginarmos que o curso de formação de arquitetos paisagistas em Harvard (EUA) foi inaugurado em 1901 e que ainda não temos nada semelhante no País, mais de um século depois... Por isso mesmo temos discutido muito o papel do ensino de paisagismo nas universidades, temos participado de programas de capacitação de professores de paisagismo, promovido congressos, encontros, debates, etc. Penso que seja a forma possível de ir formando uma nova mentalidade, configurando o perfil da profissão e do profissional apto a enfrentar os desafios exigidos pelo momento.

AuE Soluções: Uma instituição solidificada como a ABAP supre a lacuna da falta de regulamentação?

Barra: Não, por isso trabalhamos com vistas à regulamentação. Infelizmente, ainda acho que vai demorar um pouco, mas aos poucos vamos dando forma ao projeto de regulamentação, dentro da nossa realidade e das nossas possibilidades.

Uma das missões da ABAP é criar condições para que a profissão de paisagista venha a ser regulamentada da forma como acreditamos que deva ser.


AuE Soluções: Conte-nos um pouco sobre o 46º Congresso Internacional de Paisagismo que a Abap está organizando?

Barra: Trata-se de uma nova edição do congresso ocorrido em 1978, que citei há pouco. O Brasil se candidatou a sediar o Congresso Mundial da IFLA em 2009 e foi aceito. O encontro acontecerá no Rio de Janeiro, de 21 a 23 de outubro. O tema que escolhemos é Infraestrutura Verde: Paisagens de Alto Desempenho, que vem ao encontro de questões atuais, como sustentabilidade, respeito aos ecossistemas, preocupação com a permeabilidade dos solos, etc. O programa completo está no site www.46ifla2009.com.br, bem como a ficha de inscrição e outras informações de interesse. Esperamos cerca de 500 participantes, oriundos dos quatro cantos do mundo.

AuE Soluções: Quais são os diferencias deste congresso?

Barra: Ele ocorre no ano do centenário de nascimento de Roberto Burle Marx, o mais importante paisagista do século XX. Muitas mostras e publicações sobre sua obra serão oferecidas para os profissionais e para o público em geral. Além disso, a ABAP lançará o livro comemorativo de suas primeiras 3 décadas de existência, que traça o histórico desse período de transformação a partir do trabalho desenvolvido por seus associados. Em paralelo ao lançamento do livro, vamos ter uma exposição mostrando uma síntese dessa produção, que é simplesmente fantástica. Temos profissionais brasileiros, como Fernando Chacel e Rosa Kliass, que trarão seus trabalhos sempre inovadores e antenados com visões não meramente cosméticas do paisagismo, mas preocupadas com as questões mais amplas englobadas na temática principal do congresso. Da mesma forma, estamos convidando uma gama de profissionais internacionais que possuem trabalhos na mesma linha de preocupação, para trocarmos experiências e enriquecermos nossa visão.

AuE Soluções: Ao longo da sua carreira você realizou diversos projetos de paisagismo. Qual deles você destacaria?

Barra: Parafraseando Burle Marx, eu diria que meu projeto mais importante é o mais recente. Por isso apontaria o Parque da Cidade de Porto Velho (RO)- veja fotos abaixo- pela oportunidade de trabalhar com a flora nativa e criar um grande lago que funciona não somente como ambiente de lazer, mas também como elemento de equilíbrio, contenção e retardo das águas pluviais, numa região sujeita a fortes temporais, dotando a cidade de um grande equipamento de sociabilidade, até então inexistente. Nesse trabalho também tive a oportunidade de recompor 1,5 quilômetro da vegetação marginal do Canal da Penal, criando uma verdadeira proteção entre os empreendimentos vizinhos e o parque.

AuE Soluções: E qual dos seus projetos foi mais desafiador? Por quê?

Barra: Todos são. Talvez existam, mas ainda não tive a oportunidade de pegar projetos "fáceis". Quer dizer, alguns até poderiam ter sido, mas sempre procuro introduzir um conceito novo, ou uma tipologia de solução que ainda não experimentei, ou tenho que lidar com um orçamento muito apertado, ou com a incompreensão do cliente do real alcance do trabalho do arquiteto paisagista... Todos exigem muito suor e acho que eu não sentiria prazer se não fosse assim.

O projeto:
projeto de paisagismo do Parque da Cidade de Porto Velho (RO)




Local até o momento:
projeto de paisagismo do Parque da Cidade de Porto Velho (RO)


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eBook: Planta baixa técnica x Planta humanizada em paisagismo

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1 - Autor: Nancy Ramaldes - Data: 04/03/2011 03:44:59

Fui aluna do Eduardo Barra no Rio de Janeiro, conheço alguns de seus trabalhos. Como sempre maravilhosos!



2 - Autor: Helena Costa - Data: 15/06/2009

Gostaria de saber se o curso de Paisagismo da Veiga de Almeida irá voltar, pois não sei outra instituição para o curso.



3 - Autor: Arquiteto e paisagista Leonardo - Data: 06/04/2009

É preciso que vcs todos, de uma vez por todas, reconheçam o curso de paisagismo da UFRJ.Não é a primeira vez que venho pedindo isso por todos os nossos colegas.



4 - Autor: Graciélio Magalhães - Data: 12/02/2009

Parabéns pela matéria.
Acho que voces poderiam explorar mais os conceitos que o profissional usa em seus projetos, mesmo assim a entrevista está ótima.



5 - Autor: Conceicao Limoli - Data: 09/02/2009

Parabens.Eduardo Barra lindo trabalho em Porto Velho (R0)conheço bem as cidades do estado,minha filha e Arquiteta Monica Limoli e eu Conceição Limoli, Paisagista em Cacoal morando a três anos aqui executando meus trabalhos na região e valorizando a botânica regional. Parabéns..



6 - Autor: Rosa Casati Ramaldes - Data: 07/02/2009

Parabéns pela matéria. Sou paisagista e admiradora do trabalho de Eduardo Barra.
Penso como ele, paisagismo fácil não existe.Gostei muito do Paisagens Úteis.Espero que o IFLA seja bem proveitoso, já estamos divulgado para os alunos de paisagismo do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIVIX -Vitória - ES,onde ministramos aula desta disciplina.




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